“É preciso passar por muitas decepções para merecer de novo o primeiro amor”.
Ao ler essa frase não consegui impedir que, subtamente, uma lembrança atravessasse minha consciência: O dia em que ficamos sentados na escada no Setor Comercial durante horas, conversando sobre tudo e nada ao mesmo tempo.
Lembro que em algum momento pensei sobre o que eu estaria fazendo ali. Matando serviço descaradamente em frente ao prédio que trabalhava, tentando conquistar uma garota que dizia repetidamente e cheia de convicção “eu não quero ficar com niguém agora”.
Incrivelmente aquela tarde me revelou mais coisas sobre mim, do que sobre ela. Acho que até então não tinha percebido, mas aquelas horas viriam a ser determinantes no rumo que minha vida tomaria.
Conversamos sobre a vida e nossas responsabilidades. Sobre o trabalho e estudos. Recebemos a benção de um profeta de rua, que via o futuro nas distorções mentais provocadas pelo álcool. E ao fim do dia, fomos surpreendidos por um bichano de olhos coloridos que se enrroscava nos nossos corpos enquanto nos envolviamos em um nível mais elevado de carinho e compreensão.
Durante quase uma ano essa história se repetiu. Fogos de artifício, shows, exposições. Lembro de um dia em que perguntei à ela “e se as borboletas voassem como os beija-flores?”
Ela respondeu: “Seriam espécimes em extinção, por que seriam os seres mais lindos existentes no mundo”.
Percebi que ela era a pessoa que me completaria pelo resto da minha vida. Se uma pessoa consegue responder uma pergunta dessas com tanta facilidade e presteza, seria capaz de me deixar lúcido o bastante para descobrir que eu estava apaixonado. E assim foi.
Minha paixão é irreverente e foge aos padrões convencionais. Não me importo. Amor não é para os fracos e nem para os que tem medo de ser demasiadamente humanos. A cada momento que passa tenho mais certeza de que a vida é a maior inimiga que temos, e ao mesmo tempo não queremos derrota-la em um campo de batalha. Isso me faz concluir que meu conflito maior é comigo mesmo. Apesar de toda ternura e carinho, só consigo transparecer fragilidade e carência. Isso a irrita, e me irrito muito mais por ser tão alheio à declarações de amor acompanhadas por flores e bombons.
Mesmo depois de tantos erros e mágoas ainda consigo ver as coisas quando fecho os olhos. Ela andando de pés descalços pela nossa casa e ficando na ponta dos dedos de unhas vermelhas para apanhar algo em uma prateleira mais alta na cozinha. Uma criança de olhinhos puxados e maria chiquinha pulando no sofá enquanto assiste desenho animado, e outro mais sério e bochechudo, de óculos e cabelo cogumelo, sentado na mesa da sala desenhando um monstro verde que destrói a cidade.
Enquanto isso eu vou estar no quintal lendo meu jornal de chinelo e ciroulas. Com o cabelo grisalho e barba por fazer pensando “ainda bem que eu matei serviço aquele dia”.
Essa é minha história de amor. Talvez não seja romântica e provavelmente não vá virar livro ou um grande sucesso do cinema nacional. Mas pra variar, não me importo. O amor não é simples, e eu, com certeza também não.