Gabriela

Posted in Crônicas, contos e corações partidos. on 29 de março de 2010 by brunollima

“É preciso passar por muitas decepções para merecer de novo o primeiro amor”.

Ao ler essa frase não consegui impedir que, subtamente, uma lembrança atravessasse minha consciência: O dia em que ficamos sentados na escada no Setor Comercial durante horas, conversando sobre tudo e nada ao mesmo tempo.

Lembro que em algum momento pensei sobre o que eu estaria fazendo ali. Matando serviço descaradamente em frente ao prédio que trabalhava, tentando conquistar uma garota que dizia repetidamente e cheia de convicção “eu não quero ficar com niguém agora”.

Incrivelmente aquela tarde me revelou mais coisas sobre mim, do que sobre ela. Acho que até então não tinha percebido, mas aquelas horas viriam a ser determinantes no rumo que minha vida tomaria.

Conversamos sobre a vida e nossas responsabilidades. Sobre o trabalho e estudos. Recebemos a benção de um profeta de rua, que via o futuro nas distorções mentais provocadas pelo álcool. E ao fim do dia, fomos surpreendidos por um bichano de olhos coloridos que se enrroscava nos nossos corpos enquanto nos envolviamos em um nível mais elevado de carinho e compreensão.

Durante quase uma ano essa história se repetiu. Fogos de artifício, shows, exposições. Lembro de um dia em que perguntei à ela “e se as borboletas voassem como os beija-flores?”

Ela respondeu: “Seriam espécimes em extinção, por que seriam os seres mais lindos existentes no mundo”.

Percebi que ela era a pessoa que me completaria pelo resto da minha vida. Se uma pessoa consegue responder uma pergunta dessas com tanta facilidade e presteza, seria capaz de me deixar lúcido o bastante para descobrir que eu estava apaixonado. E assim foi.

Minha paixão é irreverente e foge aos padrões convencionais. Não me importo. Amor não é para os fracos e nem para os que tem medo de ser demasiadamente humanos. A cada momento que passa tenho mais certeza de que a vida é a maior inimiga que temos, e ao mesmo tempo não queremos derrota-la em um campo de batalha. Isso me faz concluir que meu conflito maior é comigo mesmo. Apesar de toda ternura e carinho, só consigo transparecer fragilidade e carência. Isso a irrita, e me irrito muito mais por ser tão alheio à declarações de amor acompanhadas por flores e bombons.

Mesmo depois de tantos erros e mágoas ainda consigo ver as coisas quando fecho os olhos. Ela andando de pés descalços pela nossa casa e ficando na ponta dos dedos de unhas vermelhas para apanhar algo em uma prateleira mais alta na cozinha. Uma criança de olhinhos puxados e maria chiquinha pulando no sofá enquanto assiste desenho animado, e outro mais sério e bochechudo, de óculos e cabelo cogumelo, sentado na mesa da sala desenhando um monstro verde que destrói a cidade.

Enquanto isso eu vou estar no quintal lendo meu jornal de chinelo e ciroulas. Com o cabelo grisalho e barba por fazer pensando “ainda bem que eu matei serviço aquele dia”.

Essa é minha história de amor. Talvez não seja romântica e provavelmente não vá virar livro ou um grande sucesso do cinema nacional. Mas pra variar, não me importo. O amor não é simples, e eu, com certeza também não.

Sabatina

Posted in Crônicas, contos e corações partidos. on 10 de outubro de 2009 by brunollima

A sala não era tão grande quanto se pode imaginar. No máximo 15 metros de comprimento por 10 de largura. Uma porta comum de madeira dava acesso a um corredor estreito de três metros de comprimento que terminava dentro da sala. Lá dentro, senhores de ternos bem alinhados e gravatas bem atadas aos pescoços esperavam a entrada do sabatinado do dia. Também havia mulheres dentro da sala abafada e bem iluminada da ala de comissões do Senado Federal. A maioria delas eram jovens com os rostos bem maquiados e bolsas extravagantes, desfilando a tendência outono/inverno que acabara de ser lançada pela grifes famosas da cidade.
Ainda não haviam chegado todos os 23 senadores que formavam a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas a sala já estava cheia de gente que aguardava ansiosa o julgamento do indicado para a vaga de ministro da Suprema Corte.
O carpete bege, que forrava todo o chão, tinha algumas manchas de café e borrões desbotados de sol. A parede direita à entrada da sala era uma divisória de madeira envernizada, escura, com 25 quadros de membros do Senado pendurados alinhadamente. Em cima dos quadros letras douradas “Presidentes da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal”. A parede oposta aos quadros era de vidro com cortinas também beges, mas de tom mais claro que o carpete, e uma faixa amarela se estendiam horizontalmente por toda vidraça. As cortinas estavam fechadas, deixando toda iluminação do lugar pelas lâmpadas do teto de gesso branco. Continue lendo

Cidade maravilhosa

Posted in Poesia on 4 de outubro de 2009 by brunollima

Eu vi a garota de Ipanema,
prostituta em frente ao cinema.
De mini-saia, fumando bêbada
procurando um estrangeiro rico.
Lá vai ela atrás de um pico
Descendo torta pela alameda

Eu vi o garoto do rio
13 anos, armado, vadio
drogado, fugindo da escola.
Negro de recente forro.
De pés descalços subindo o morro.
No sinal, pedindo esmola.

Eu vi o Cristo Redentor
Se rendendo ao terror
Não de braços abertos,
mas de mãos para o alto.
Como quem sofre um assalto
Sentindo a morte mais perto

Eu vi o Rio de Janeiro
Praia, arrastão, desespero
Cidade maravilhosa do cartão postal
Corcovado, Pão-de-Açucar, vistas tão belas
Comando vermelho, fome, chacina na favela
Rio de Janeiro, orgulho nacional.

No ar

Posted in Poesia on 14 de setembro de 2009 by brunollima

Se mantenha no ar
e continue respirando.
Você vai se sentir melhor
quando as cores descolarem
e as pedras decolarem.
É só deixar ser levada.
Você não vai mais sentir dor.

Suas mãos estão dormentes
e agora seus sentimentos também.
Sua alma anestesiada.
Quando você voltar
iremos mergulhar bem fundo.
E você vai conseguir segurar minha sombra.

Mantenha os olhos abertos.
Você parece estar feliz agora.
E nem lembra mais por que me procurou
e nem o que me disse.

Marmitas

Posted in Crônicas, contos e corações partidos. on 20 de março de 2009 by brunollima

Acordei ainda com sono, levantei e liguei o som. Eu sempre gostava de ouvir The doors pela manhã por que me ajudava a acreditar que ainda estava sonhando. Como numa viajem louca de Jim Morrison.
Abri o armário e só tinha algumas caixas de leite desnatado e um pacote de biscoitos de água e sal. “Deus, por favor não piore meu dia” rezei baixo enquanto comia um biscoito. Tomei banho, me arrumei e peguei o mesmo ônibus de sempre no mesmo horário de sempre.
É incrível como algumas pessoas não se importam com a realidade em que vivem. Como por exemplo o motorista do 335.1. Negro, forte, alto e sempre exibindo um grande e contagioso sorriso branco no rosto. Retribui o sorriso, passei pela roleta e atravessei o corredor.
Eu sempre sentava lá atrás no último banco, com os outros leitores, lá o mundo era diferente. Um senhor de terno cinza e gravata cor-de-rosa com um bigode grisalho bem aparado lia o jornal impresso mais vendido da cidade. Me desejou “bom dia”. Respondi com um aceno de cabeça. Não confio em gente de terno. Do outro lado, sentada na janela, estava uma senhora de meia idade com um longo cabelo negro peso em coque. Usava uma camisa verde, abotoada até o pescoço, e uma saia longa que se estendia até os calcanhares. Com os dedos finos e enrugados folheava as páginas da bíblia sagrada. Sentei no meio, de frente pro corredor, dali eu podia ver se alguém verdadeiramente interessante entrasse no ônibus. Tirei o “velho Buck” da mochila e comecei a ler Notas de um velho safado.
A certeza do engarrafamento que eu ia enfrentar era tão certa quanto a conversa que minha supervisora iria ter comigo pelo meu quinto atraso consecutivo naquela semana. Mas eu não me importava, quanto mais tempo eu ficasse preso no congestionamento, mais páginas eu ia ler. O tempo que eu passava dentro dos transportes públicos de Brasília era todo o tempo que eu tinha para me dedicar a leitura. Passar 40 minutos dentro de um coletivo parado no meio de um engarrafamento é para a maioria das pessoas uma perda de tempo, pra mim significava 40 minutos do bom e velho Henry Chinaski enchendo a cara pelos bares de Los Angeles. Continue lendo

Estar só é tão triste quanto estar sóbrio

Posted in Crônicas, contos e corações partidos. on 29 de novembro de 2008 by brunollima

- Acabou a vodca!

E lá estava eu novamente em mais uma festa louca de Rimbaud. Música alta, gente dançando, gente bebendo e gente transando. A maioria das festas de Rimbaud eram assim, as vezes em algumas dessas festas alguém quebrava uma garrafa na cabeça de outro, ou uma garota louca semi-nua subia em cima de uma mesa pra dar um show. Eu adorava as festas dele.

Na sala alguns dançavam num ritmo frenético e compassado, quase em transe, sobre o efeito de música eletrônica. Estava escuro e a única lâmpada acesa irradiava luz-negra, que piscavam como flashs de um filme de terror. Na cozinha um grupo de jovens atores ,que faziam teatro com Rimbaud, discutiam a eleição de um democrata negro à presidência dos EUA. O resto dos convidados que estavam lá ou estavam trancados no quarto, fazendo coisas melhores do que dançar ou discutir política, ou então estavam bebendo muito, o que era meu caso.

Eu estava sentado lá fora, em uma mesa, no jardim. A mesa era retangular e estava coberta com uma toalha de veludo verde. Eu calçava minhas botas ,que usava desde o ensino médio, um blue jeans rasgado e uma camisa dos Rolling Stones, tão velha quanto o próprio Mick Jagger.

Algumas cartas de baralho à minha frente estava Rimbaud, com aqueles loucos cabelos em cachos curtos e sempre exibindo um sorriso que era capaz de fazer uma beata ir bater na porta do inferno. Rimbaud fazia teatro na CIA de Teatro Atthus Bulcão e estava dando aquela festa para comemorar o final de uma temporada de uma peça, baseada em um conto de Machado de Assis. Eu odiava peças, atores e teatro, mas eu tinha que admitir, aqueles esquisitos sabiam se divertir. Continue lendo

Área geriátrica da minha consciência política

Posted in Crônicas, contos e corações partidos. on 29 de novembro de 2008 by brunollima

E então você tem que escolher, tudo depende de uma única decisão. E quando você toma a decisão errada você termina como eu: velho, sozinho em cima de uma cama de hospital público esperando pra ver quem vem primeiro: um coração novo ou a morte. O problema é saber que dentre as duas visitas, você só tem certeza da vinda da segunda.

É engraçado quando se é jovem, sem manchas na pele e com dentes na boca, e você pensa “que se dane. Se eu não conseguir mudar o mundo eu me livro dele”, e quando você fica velho e precisa de uma enfermeira pra te alimentar e de um coquetel de medicamentos pra manter seu coração batendo, você percebe que é exatamente o contrário. Se o mundo não consegue te mudar é ele quem se livra de você, se livra de você com um tapinha nas costas e um chute no traseiro. Continue lendo

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